EDITORIAL
Na secção História da Medicina do presente número da Acta Pediátrica Portuguesa publica-se um interessante artigo do Dr. Jaime Teixeira Mendes (que nos tem proporcionado exce lente colaboração) em que é relatada a pouco conhecida história do Centro de Saúde de Lisboa nos anos 40 do século passado, e que, pelo que podemos ler, constitui um importante contri buto para a história da assistência médica às crianças em Portugal. Desejamos que a o conhecimento destes factos, assim como do pioneirismo e das dificuldades passadas por estes profissionais, possam ser inspiradores para aqueles que procuram, também hoje, a inovação e a melhoria constante assim como a equidade, a acessibilidade e a qualidade dos cuidados assistenciais e preventivos às crianças.
Correspondência:
António Gomes
Coordenador de Edição da Acta Pediátrica Portuguesa
app@spp.pt
PROFESSOR BENJAMIM SCHMIDT
Morreu, no passado dia 6 de Junho, em São Paulo, Brasil, o Professor Benjamim Schmidt, uma das maiores figuras, senão a maior, da Pediatria brasileira. Sabia-o doente há muito, mas foi com o maior desgosto que muito recentemente tive conhecimento da sua morte.
Conheci o Professor Benjamim Schmidt há muito, cerca de 40 anos, quando da minha primeira viagem ao Brasil para tomar parte num Congresso de Hematologia.
Amigos comuns convidaram-nos para almoçar no terraço do Restaurante Itália, mesmo no centro de São Paulo. Lembro-me como se fosse hoje. Fiquei encantado com o seu espírito juvenil, a sua alegria de viver, e o paralelismo das nossas ideias sobre o futuro da pediatria e do seu ensino. Recor dámos igualmente amigos comuns, pediatras europeus.
OBESIDADE INFANTIL E HIPERTENSÃO ARTERIAL - A REALIDADE DE UMA POPULAÇÃO PRÉ-ESCOLAR
Introdução: A obesidade infantil é um grave problema de Saú de Pública, com início em idades cada vez mais precoces. As suas consequências são preocupantes pelas comorbili da desassociadas, das quais se destaca a hipertensão arterial (HTA).
Objectivo: Avaliar a prevalência de excesso de peso (EP) e obesidade, HTA e pré-HTA, e a sua associação, numa amostra de crianças em idade pré-escolar.
Métodos: Estudo transversal entre Janeiro e Abril de 2007. Procedeu-se à determinação do índice de massa corporal (IMC) e avaliação da pressão arterial (PA). Para avaliar a prevalência de EP e obesidade foram usadas as tabelas de IMC do Centers for Disease Control and Prevention. Considerou-se pré-HTA a PA sistólica e/ou diastólica entre os percentis 90 e 95 para a idade, sexo e estatura e HTA a PA igual ou superior ao percentil 95, em três medições distintas.
Resultados: Foram incluídas no estudo 165 crianças, sendo 58,2% do sexo masculino. Tinham peso normal 64,2% crianças, 6,7% eram magras, 15,2% tinham EP e 13,9% eram obesas. As prevalências de EP e obesidade foram menores no sexo masculino. A pré-HTA ocorreu em 3,6% crianças e a HTA em 4,2%. No sexo masculino ambas as prevalências foram de 4,2% e no feminino de 2,9% e 4,3%, respec tivamente. As diferenças entre sexos não foram estatisticamente significativas. A prevalência de pré-HTA ou HTA nas crianças
com EP ou obesidade foi de 18,8% e nas crianças com baixo peso ou peso normal foi de 3,4%.
Discussão: Quase 1/3 das crianças apresentaram EP ou obesidade. Verificou-se existir uma associação entre (pré)-HTA e EP/obesidade nesta amostra. De forma a contrariar a tendência crescente da obesidade, é importante proceder à avaliação antropométrica e da PA nas consultas de saúde infantil. Além disso, é urgente implementar medidas de prevenção primária e secundária, com início em idades precoces.
Palavras-chave: Índice de massa corporal, estatura, pressão arterial, hipertensão.
Correspondência:
Ana Carolina Gonçalves Cordinhã
Hospital Pediátrico de Coimbra
Avenida Bissaya Barreto
3000 Coimbra
carolinacordinha@gmail.com
VIGILÂNCIA PROSPECTIVA DA INFECÇÃO RELACIONADA COM A PRESTAÇÃO DE CUIDADOS DE SAÚDE NUMA UNIDADE DE CUIDADOS INTENSIVOS NEONATAIS – UMA EXPERIÊNCIA DE SEIS ANOS
Resumo: As infecções associadas à prestação de cuidados de saúde são ocorrências temíveis em unidades de cuidados intensivos neona tais (UCIN). A vigilância prospectiva dá aos neonatolo gistas um conhecimento da sua frequência, dos agentes mais comuns isolados na sua unidade e respectiva sensibilidade, influenciando de modo positivo as tentativas de controlar a sua frequência.
Objectivo: Divulgar os resultados da vigilância epidemiológica da infecção de origem hospitalar numa UCIN. População e Métodos: Todos os recém-nascidos (RN) admitidos na unidade são registados, independentemente da idade gestacional, do peso ao nascer e da idade na admissão. Todos os episódios de infecção sistémica ocorridos desde a admissão até à alta são registados: sépsis, septicémia, pneumonia e meningite. É classificada como infecção de origem hospitalar a que surge 72h após a admissão.
Resultados: No período de seis anos decorrido entre 2002 e 2007, foram tratados 1648 recém-nascidos a que corresponderam 27 862 dias de tratamento, 4 395 dias de ventilação e 10 537 dias de cateterismo venoso central (CVC); 261 RN eram de muito baixo peso (MBP) e 369 foram submetidos a grande cirurgia. Houve 242 episódios de infecção em 229 doentes. As taxas de infecção foram as seguintes (mediana e limites): RN infectados em % de tratados 13% (10,4%-17,4%); septicémia/100 doentes tratados-6,5 (3,8-11,3); septicémia/1000 dias doente-3,7 (3-6,2); septicémia/1000dias de CVC-4.1 (0,9-5,8); infecção por Staphylococcus coagulase negativa (SCN) em RN MBP - 9,8% (4%-12,5%); pneumonia relacionada com tubo traqueal/1000 dias de tubo traqueal – 3,2 (0-9,1). O agente mais frequentemente isolado foi o SCN.
Conclusão: A vigilância epidemiológica é um instrumento muito útil para conhecer as taxas de infecção de uma unidade de saúde e a sua tendência, assim como os microorganismos e respectiva sensibilidade. Esse conhecimento constitui a base a partir da qual se pode tentar reduzir a sua prevalência.
Palavras-chave: Infecção associada à prestação de cuidados de saúde, UCIN, vigilância prospectiva
Correspondência:
Maria Teresa Neto
UCIN Dona Estefânia Hospital
Rua Jacinta Marto
1169-045 Lisbon
Portugal
teresaneto@netcabo.pt
AVALIAÇÃO DOS RECURSOS DE ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE NAS UNIDADES HOSPITALARES PORTUGUESAS
Introdução: Está em curso uma reestruturação dos recursos de atendimento ao adolescente tendo em vista o seu seguimento universal nas Unidades Pediátricas.
Objectivo: Avaliar os actuais recursos de atendimento a adolescentes nas Unidades Hospitalares (UH) portuguesas com atendimento pediátrico.
Metodologia: Inquérito enviado por correio às UH portuguesas com atendimento pediátrico.
Resultados: Responderam 45 de um total de 55 UH inquiridas, com moda de idade limite de atendimento de dezoito anos na Consulta Externa (CE) e quinze anos no Internamento (I) e Serviço Urgência (SU) (máximo de dezoito e mínimo de doze anos). Existe uma Consulta de Adolescentes (CA) organizada em dezoito UH, em 50% dos casos com espaço de consulta específico e em 17% com sala de espera própria. A totalidade tem apoio de profissional de serviço social, 94% de dietista/nutricionista, 89% de psicólogo, 83% de ginecologista e 61% de pedopsiquiatra, sendo que apenas 50% conta com apoio de todos estes profissionais. Cinco UH referiram estar a programar o início de uma CA durante o ano de 2008. Foi reportada a existência de dez Unidades de Internamento de Adolescentes (UIA) com um número total de 56 camas predominantemente distribuídas (70%) nas áreas geográficas do Centro e de Lisboa e Vale do Tejo. Na amostra estudada existe um total de 276 camas com dimensões adequadas a adolescentes, a maioria concentrada nas áreas Centro e Lisboa e Vale do Tejo (71%). Dezassete UH referiram ter profissionais com formação especí fica no atendimento ao adolescente. Seis UH têm apenas uma sala de observações e uma não apresenta marquesas de observação adequadas a este escalão etário.
Conclusões: Existem ainda algumas lacunas nos recursos de atendimento aos adolescentes, nomeadamente nas condições estruturais, número de profissionais com formação específica na adolescência e nas diferentes áreas que deverão constituir o apoio multidisciplinar à abordagem do adolescente.
Palavras-chave: adolescentes, Portugal, recursos de atendimento hospitalar
Correspondência:
Hugo Braga Tavares
Rua Óscar da Silva 1295 1º esq
4450-760 Leça Palmeira
hugotavares@net.sapo.pt
MANIFESTAÇÃO RARA DE DOENÇA INVASIVA POR ESTREPTOCOCO DO GRUPO B
Resumo: A síndrome de adenite-celulite é uma forma rara de apresentação de infecção tardia por Streptococcus do grupo B (SGB) podendo ser o único marcador de doença invasiva. Relatam-se dois casos com síndrome adenite-celulite de localização cervical associado a bacteriémia por SGB e discute-se a apresentação clínica, as alterações laboratoriais e a evolução desta entidade clínica baseados numa revisão da literatura, realçando a importância de que na abordagem deste quadro seja considerada a possibilidade de doença invasiva.
Palavras chave: Sépsis neonatal tardia, Streptococcus do grupo B, síndrome adenite-celulite.
Correspondência:
Maria José Dinis
R. Rodrigo Gonçalves Lage, 606
4425-188 Águas Santas- Maia
majodinis@gmail.com
GOMA SIFILÍTICA – UMA APRESENTAÇÃO RARA DA NEUROSSÍFILIS NA IDADE PEDIÁTRICA
Resumo: Apresenta-se o caso de uma criança de seis anos de idade com quadro de cefaleia, alteração do equilíbrio, disartria e vómitos de evolução progressiva ao longo de três semanas. A tomo grafia computorizada cerebral identificou uma lesão da fossa posterior. O estudo etiológico foi direccionado para a exclusão de uma patologia neoplásica ou infecciosa/inflamatória e culminou no diagnóstico de goma sifilítica, corroborado pela identificação de Treponema pallidum no líquor, por técnica de polymerase chain reaction (PCR) e pela observação de uma lesão inflamatória crónica no estudo anatomo-patológico da peça cirúrgica. A goma sifilítica é uma forma de apresentação clínica da neurossífilis extremamente rara em idade pediátrica. Realça-se a importância de considerar o diagnóstico de neurossífilis em crianças com manifestações do foro neurológico e história prévia de sífilis congénita. A técnica de polymerase chain reaction mostra-se essencial no diagnóstico desta entidade clínica.
Palavras-chave: tumor da fossa posterior, sífilis, neurossífilis, goma sifilítica.
Correspondência:
Maria do Céu Soares Espinheira
Serviço de Pediatria Médica. UAG da Mulher e da Criança.
Hospital de S. João
Alameda Prof. Hernâni Monteiro
4200 Porto
ceuespinheira@gmail.com
ESTUDO FUNCIONAL RESPIRATÓRIO DO LACTENTE – ESTADO DA ARTE E APLICABILIDADE CLÍNICA
Resumo: Os lactentes não colaboram nas manobras de respiração voluntária, necessárias para a realização de estudos funcionais respiratórios. Em consequência, foram desenvolvidas, nos últimos anos, equipamentos especiais para avaliação funcional respiratória nesta idade. A preparação exigida para efectuar estudos funcionais respiratórios no lactente é superior à aplicada em crianças mais velhas. Estes procedimentos são revistos, bem como a fisiologia do desenvolvimento pulmonar. Adicionalmente revêem-se algumas das indicações para a execução de estudos funcionais respiratórios no lactente.
Palavras Chave: função respiratória, lactente, métodos
Correspondência:
Ana Saianda
Rua Álvaro Benamor, nº 4, 1º C
1600-894 Lisboa
Telemóvel: 966368506
asaianda@gmail.com
CONSENSO PARA O TRATAMENTO NUTRICIONAL DAS DOENÇAS DO CICLO DA UREIA
Resumo: As doenças do ciclo da ureia são o resultado do défice enzimático de uma das enzimas que compõem a via metabó lica de excreção do azoto. Com a excepção do défice na transcarbamilase da ornitina, que está ligado ao cromos soma X, todas as doenças são autossómicas recessivas. A apresentação clínica destas doenças pode ocorrer no período neonatal, durante a infância ou mesmo na adolescência ou idade adulta. A hiperamoniemia, as alterações urinárias e plasmáticas dos aminoácidos e ácidos orgânicos, constituem os principais marcadores bioquímicos das doenças do ciclo da ureia. O tratamento nutricional baseia-se na implementação de uma dieta restrita em proteína natural e suplementada com uma mistura de aminoácidos essenciais. O aporte proteico tem de ser constantemente
ajustado em função do controlo metabólico, da avaliação antropo métrica e da medicação usada para explorar as vias alternativas de excreção do azoto. A monitorização do estado nutricional assume uma importância crucial no seguimento destes doentes, de modo a melhor aferir as suas reais necessidades, prevenindo a insuficiência proteica, a qual poderá afectar negativamente o crescimento e desenvolvimento.
Palavras-chave: Doenças do ciclo da ureia, amónia, hiperamoniemia, dieta hipoproteica, tratamento nutricional, avaliação do estado nutricional.
Correspondência:
Manuela Ferreira de Almeida
Centro de Genética Médica Jacinto de Magalhães - INSA
Praça Pedro Nunes N.º88
4099-028 Porto, Portugal
Telefone +351 22 6070339
manuela.almeida@insa.min-saude.pt
RECOMENDAÇÕES PARA A VACINAÇÃO CONTRA A VARICELA
Em Portugal a vacina da varicela não está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV) mas está autorizada pelo INFARMED e disponível para prescrição médica. Foi neste contexto que a Sociedade de Infecciologia Pediátrica (SIP), em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), organizou um workshop sobre a vacina contra a varicela, cujas conclusões aqui se resumem e que pretendem servir de orientação para a sua utilização no nosso país.
Correspondência:
Conceição Neves
conceicaoneves59@gmail.com