EDITORIAL
Numa primeira leitura rápida do nº 5 de 2009 da Acta Pediátrica Portuguesa (APP), três artigos me chamaram desde logo a atenção: um, Pediatróia, pelo título sugestivo; outro, preenchendo uma rubrica que tem tido escassa colaboração - Educação Médica; e um terceiro, proveniente duma instituição hospitalar não estatal, o que não tem sido habitual.
Correspondência:
João Manuel Videira Amaral
Director da Acta Pediátrica Portuguesa
app@spp.pt
PEDIATRÓIA
Os pediatras deram-se conta que tinham perdido o seu “ponto da situação”, o seu “estado da arte”, a sua rainha, a estrela polar por que se guiavam. Na lufa-lufa do trabalho diário não lhe tinham dado a atenção indispensável e ela teria ido para o outro lado do mar Egeu.
Decidiram ir lá buscá-la; todos colaboraram na organização da empresa e, tendo sacrificado aos deuses e escolhido o dia fasto, rumaram a Tróia. Nem todos que alguns espartanos teriam que ficar para assegurar a defesa das suas cidades; outros, poucos, consideraram que o objectivo era uma ilusão - Eurípedes afirmara que a verdadeira Helena não estava lá, pelo que a viagem não valeria a pena.
INFECÇÃO URINÁRIA NA CRIANÇA OU SOBRE O CONHECIMENTO TÁCITO E A MEDICINA BASEADA NA EVIDÊNCIA
Há séculos que o rim cicatricial observado na pielonefrite crónica é encarado como uma das causas mais frequentes de insuficiência renal terminal na criança e no adulto jovem. Um facto, o rim atrófico, um dado, uma observação, comum a outras formas de falência renal, informação acrescida sobre uma realidade em que, durante muito tempo, se possuiu conhecimento muito limitado.
A partir das descrições de Hodson e Edwards1 da associação entre refluxo vesico-ureteral (RVU) e pielonefrite crónica, mais tarde designada nefropatia de refluxo, foram acrescen tados novos dados e mais informação que, complementados com os trabalhos experimentais de Ransley e Risdon2,3 no leitão, pareciam ter conduzido ao pleno do conhecimento da etiopatogénese e, como tal, da prevenção, das formas de falência renal associadas a refluxo, infecção e atrofia renal.
Ana Teixeira
Serviço de Pediatria
Unidade Autónoma de Gestão da Mulher e da Criança
Hospital de São João, E.P.E.
Alameda Professor Hernâni Monteiro – 4200 Porto
anafteixeira@gmail.com
RELATÓRIO DE ACTIVIDADES DA COMISSÃO NACIONAL DE SAÚDE DA CRIANÇA E ADOLESCENTE 2004-2008
A 2ª edição deste relatório foi actualizada com os indicadores de saúde da criança e adolescente em 2008 e é de distribuição gratuita pelo Alto Comissariado da Saúde (pedidos a isaalves@acs.min-saude.pt). Na I Parte, Orientações para uma Carta Hospitalar de Pediatria define as condições mínimas, sob o ponto de vista de espaços, recursos humanos, tecnologias e apoios, de um Serviço de Pediatria Médica ou de Cirurgia Pediátrica e caracteriza dois níveis de Serviços, Geral e Especializado. Hospital de Dia Pediátrico define regras para o funcionamento e financiamento destas unidades. Para a renovação dos mecanismos de Articulação entre os Cuidados Primários e Hospitalares, cria-se a figura de Pediatra Consultor e estimula-se o reforço e dinamização das Unidades Coordenadoras Funcionais.
ABORDAGEM DO TRAUMATISMO CRANIANO LIGEIRO NA IDADE PEDIÁTRICA: NEURO IMAGEM OU ATITUDE CONSERVADORA?
Introdução: A abordagem dos traumatismos crânio encefálicos (TCE) exige avaliação do risco de lesão intra craniana (LIC). Não são consensuais as indicações para tomografia computorizada crânio encefálica (TC-CE).
Objectivo: Rever a incidência de LIC no TCE ligeiro, identificar variáveis clínicas associadas e avaliar a efectividade de uma abordagem conservadora no pedido de TC-CE.
Métodos: Estudo prospectivo histórico incluindo os doentes observados na urgência pediátrica por TCE e transferidos para realização de TC-CE, ao longo de um ano (n=104). Caracterização de dados demográficos, clínicos, orientação diagnóstica e evolução. Análise estatística (testes não paramétricos) de associação de variáveis clínicas com LIC (α=5%). Comparação da abordagem aplicando dois protocolos internacionais de actuação no TCE minor.
Resultados: A incidência de LIC nos casos com avaliação neuro imagiológica foi de 3,5%. Segundo os protocolos utilizados para comparação, 91% (idade <2 anos) e 94% (idade ≥2 anos) das crianças transferidas apresentavam risco intermédio ou alto para LIC.A ocorrência de LIC associou-se significativamente a idade ≤12 meses e a TCE parietal (p<0,05 para ambos), sendo que o achado de fractura na radiografia apresentou um baixo valor predi tivo positivo de 14,3% na presunção de LIC. Uma actuação conservadora adaptada dos protocolos referidos resultaria na realização de menos 54% das tomografias computorizadas crânio encefálicas, com identificação de todos os casos de LIC.
Conclusões: As avaliações clínica e da radiografia de crânio têm baixa sensibilidade na presunção de LIC. É essencial a valorização da idade e características do traumatismo. A reobservação clínica seriada é fundamental na limitação do pedido de avaliação neuro imagiológica.
Palavras-chave: traumatismo crânio encefálico, tomografia computorizada crânio encefálica, hematoma, lesão intracraniana.
Correspondência:
Isabel Cristina Castro Esteves
Serviço de Pediatria do H. de Reynaldo dos Santos
Rua Dr. Luís César Pereira
2600-178 Vila Franca de Xira
isabel.castro.menezes@gmail.com
CASUÍSTICA DA UNIDADE DE PEDIATRIA DO HOSPITAL CUF-DESCOBERTAS
Introdução: A Unidade Funcional de Pediatria do Hospital Cuf-Descobertas foi o primeiro Serviço de Pediatria de um hospital privado, pelo que entendemos ser importante publicar o seu movimento assistencial, sete anos passados sobre a sua entrada em funcionamento.
Métodos: Revisão casuística de 2005 a 2007 do movimento assistencial da Unidade Funcional de Pediatria do Hospital Cuf Des-cobertas, nos sectores de Atendimento Permanente (AP), Unidade de Internamento de Curta Duração (UICD) e Internamento.
Resultados: Entre 2005 e 2007, foram observadas no AP 136.832 crianças. O grupo etário entre o mês e os 2 anos de idade foi o mais numeroso (49,2%) e o período entre as 9 e 17 horas o que registou maior afluência diária (52,2%). Foram admitidos na UICD 1.857 (1,35%) doentes, sendo as doenças do aparelho digestivo a causa mais frequente (60,7%), seguidas das do foro respiratório. A duração destes internamentos foi inferior a 24 h em 92,7% dos casos. Foram transferidos para outro Hospital 1% dos doentes. Foram hospitalizados em quarto individual 1.532 doentes, tendo a média de dias de internamento sido de 3,76 dias. As doenças respiratórias foram responsáveis por 684 (44,6%) hospitalizações, seguidas das dos aparelhos digestivo e genito-urinário. De salientar, 77 (5%) internamentos por patologias menos comuns.
Conclusão: A casuística de doentes do HCD, em comparação com a publicada por outros Serviços de Pediatria de hospitais públicos, evidencia fortes semelhanças, quer em volume de doentes quer em características nosológicas.
Palavras-chave: pediatria, cuf-descobertas, hospital privado, casuística
Correspondência:
Sílvia Pereira
Unidade funcional de Pediatria e Neonatologia
Hospital Cuf-Descobertas, Lisboa
PÚRPURA FULMINANTE PÓS VARICELA
A púrpura fulminante é uma doença trombótica rara que pode ocorrer durante ou após uma infecção ou no contexto de deficiência congénita ou adquirida de proteína C ou S. Caracteriza-se pelo envolvimento cutâneo extenso, particularmente ao nível das extremidades distais, por vezes com atingimento concomitante de outros órgãos por coagulação intravascular disseminada. Apresenta-se o caso de uma criança do sexo masculino com quatro anos de idade internada por púrpura fulminante associada a deficiência transitória de proteína C, como complicação de varicela. Apesar da varicela ser geralmente uma doença benigna e autolimitada, é fundamental o diagnóstico e terapêutica precoces das complicações graves que podem ocorrer.
Palavras-chave: púrpura fulminante, varicela, deficiência de proteína C
Correspondência:
Ana Teixeira
Serviço de Pediatria do Hospital de São João
Alameda Professor Hernâni Monteiro
4202-451 Porto
anafteixeira@gmail.com
SÍNDROME DE MEGABEXIGA MICROCÓLON E HIPOPERISTALTISMO INTESTINAL
A síndrome megabexiga microcólon hipoperistaltismo intestinal (MMHI) constitui uma associação malformativa rara, com elevada taxa de letalidade. Descreve-se o caso de um recém-nascido do sexo feminino, que apresentou ao nascimento uma distensão abdominal exuberante. A ecografia abdominal revelou uretero-hidronefrose bilateral. A laparatomia mostrou bexiga distendida, microcólon e intestino curto com má rotação. A criança faleceu ao 37º dia de vida, com um quadro de sépsis. Destaca-se a importância do diagnóstico pré-natal.
Palavras-chave: megabexiga; microcólon; hipoperistaltismo intestinal; MMHI; recém-nascido;diagnóstico pré-natal
Correspondência:
Maria João Borges
Serviço de Pediatria, Hospital Central do Funchal
Avenida Luís de Camões
9000 Funchal
mjmborges@yahoo.com
DOENÇA DE LYME
A doença de Lyme é uma infecção multissistémica causada pela espiroqueta Borrelia burgdorferi, sendo actualmente a mais comum doença transmitida por carraças na América do Norte, Europa e Ásia. Apresenta-se o caso de uma criança de oito anos de idade, sexo masculino, que após uma estadia na Holanda, onde teve contacto com carraças, desenvolveu quadro de cefaleia, cervicalgia e paralisia facial periférica à di reita, e cuja investigação clínica determinou o diagnóstico de neuroborreliose de Lyme. Em virtude das variadas e inespecíficas manifestações clínicas, com frequência o diagnóstico de doença de Lyme somente é possível com um elevado índice de suspeição.
Palavras-chave: Doença de Lyme, carraça, cefaleia, cervicalgia, paralisia facial periférica
Correspondência:
Ana Mariano
Hospital Distrital de Faro E.P.E. - Serviço de Pediatria
Rua Leão Penedo
8000-386 Faro
acmarianita@gmail.com
MIASTENIA GRAVIS NA ADOLESCÊNCIA
A miastenia gravis é uma patologia auto-imune rara que constitui um desafio diagnóstico pelo carácter flutuante da sintomatologia e pela variedade de manifestações. A terapêutica é eficaz pelo que o diagnóstico precoce é crucial. Adolescente de 12 anos que iniciou diminuição da actividade, humor depressivo e fadiga fácil. Um mês depois desenvolveu um quadro de insuficiência respiratória aguda que motivou internamento em Unidade de Cuidados Intensivos. Após a fase aguda, foi constatada diminuição global da força muscular com evidência de disfunção pós-sináptica grave no estudo electrofisiológico muscular. Foi iniciado tratamento com prednisolona e piridostigmina e foi realizada timectomia, com melhoria lenta mas progressiva. Com este caso clínico, os autores pretendem salientar as dificuldades diagnósticas da miastenia gravis na adolescência. Nesta idade, a apresentação clínica pode simular quadros psiquiátricos ou comportamentais, pelo que a necessidade de rever estes diagnósticos é fundamental.
Palavras-chave: miastenia gravis, doença neuromuscular, auto-anticorpos, timectomia
Correspondência:
Susana Sara Teixeira Soares
Av. Com. Ferreira de Matos 465, hab. 303
4450-125 Matosinhos
susanasarasoares@gmail.com